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domingo, 21 de janeiro de 2018

QUANDO CONSULTAR UM(A) PSICOTERAPEUTA?


Por Néa Tauil



Apoiando a Campanha Janeiro Branco, aproveito o momento para falar sobre algumas situações, nas quais deve-se consultar um(a) psicoterapeuta (psicólogo(a) que trabalha com psicologia clínica), já que Janeiro Branco é uma Campanha totalmente dedicada a colocar os temas da Saúde Mental em máxima evidência, no mundo, em nome da prevenção e do combate ao adoecimento emocional da humanidade, bem como convidar as pessoas a pensarem sobre o sentido e o propósito das suas vidas, a qualidade dos seus relacionamentos e o quanto elas conhecem sobre si mesmas, suas emoções, seus pensamentos e sobre os seus comportamentos

Desde quando Freud inventou a terapia pela palavra, este método foi questionado, derrubado, reerguido e reformulado. Hoje, sua influência está dispersa em centenas de correntes, algumas mais, outras menos freudianas. O fato é que, independente da abordagem teórica do profissional, a relação terapêutica se alicerça nos princípios do respeito pelo ser humano, pela empatia do psicoterapeuta pelo sofrimento do paciente (evitando julgamentos de ordem moral ou religiosa) e pelo sigilo absoluto dos conteúdos trazidos em sessão.

Importa aqui dizer que a psicoterapia é um modo de cuidar das diversas formas, com as quais o sofrimento humano pode se manifestar. É uma  ferramenta útil em diversos momentos e em diversas  circunstâncias da vida de uma pessoa, pois dela pode-se obter muitos benefícios para si mesmo e, consequentemente, para aqueles com quem convive. Veja abaixo alguns exemplos básicos de situações nas quais consultar um(a) psicoterapeuta pode fazer toda a diferença na sua vida:

  • quando os dias se sucedem e você não vê graça, nem sentido, em acordar, sair da cama e fazer as milhares de coisas que a vida, o mundo e as pessoas esperam de você;
  • quando você percebe que seus sentimentos, pensamentos e/ou comportamentos estão lhe provocando prejuízos pessoais e/ou sociais, angústias, tristezas ou quaisquer outras sensações desagradáveis e das quais você não consegue se ver livre;
  • quando a sua relação com você mesmo, com o mundo e/ou com as outras pessoas não ocorre mais de uma maneira saudável, satisfatória e capaz de produzir bons sentimentos de realização pessoal e social em você;
  • quando a sua relação com o trabalho gera angústia e sofrimento ao invés de orgulho e sensação de realização profissional em você;
  • quando o seu relacionamento afetivo com a família tornou-se conflituoso, difícil e angustiante;
  • quando as suas expectativas em relação ao seu futuro pessoal e/ou profissional forem pessimistas e obscuras;
  • quando a sua sexualidade e/ou desempenho sexual forem motivos de angústia e/ou ansiedade em sua vida;
  • quando traumas, lembranças e memórias da sua própria vida forem motivos de sofrimento no presente e desesperança em relação ao futuro;
  • quando a família, ou o relacionamento afetivo, ou o trabalho ou qualquer outra situação da sua vida lhe exigir uma decisão muito difícil de ser tomada;
  • quando inesperados e/ou dolorosos novos acontecimentos em sua vida deixaram-lhe com uma sensação interminável de impotência, tristeza ou angústia;
  • quando você se dá conta de que todas as situações anteriormente apresentadas são passíveis de ocorrer na vida de qualquer pessoa e que, portanto, é possível prevenir-se conhecendo-se melhor e trabalhando as suas próprias características subjetivas.
Se você se identificou com alguma das possibilidades apresentadas na lista, considere a possibilidade de cuidar de si mesmo por meio da psicoterapia, pois "quem cuida da mente, cuida da vida." Quando a nossa mente está em paz, todo o resto da vida fica mais fácil, afinal,  Saúde Mental é condição para uma vida feliz e com qualidade existencial.




Todos os direitos reservados a Julcinéa Maria Tauil (Néa Tauil)

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Referência:

www.janeirobranco.com.br 
www.academiadopsicologo.com.br

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Pensamentos e Emoções Influenciam a Saúde do Corpo

Por Néa Tauil



Para algumas pessoas, ainda é difícil entender como pensamentos e emoções  podem interferir  na saúde do corpo. Mas, as pesquisas comprovam que os fatores emocionais  e os fatores físicos não agem isoladamente. A mente cheia de pensamentos positivos (funcionais) ou negativos (disfuncionais)  atua como um estímulo criador de emoções que afetam o corpo, de forma positiva ou negativa, estimulando a produção de hormônios que promovem saúde ou doença.

De acordo com Nascimento e Quinta (1998), cada emoção está associada a um tipo de hormônio. Existem os chamados "hormônios da saúde" e os "hormônios da doença". Os hormônios da saúde são liberados pelo corpo diante de um estado emocional (alegria, prazer, afeto, senso de humor, motivação, otimismo, relaxamento, entre outros.) que  desencadeia o bem-estar e melhora o sistema imunológico da pessoa. Por exemplo: relembrar momentos felizes pode aumentar diretamente os níveis de serotonina e evitar que você fique com o pensamento fixado em momentos menos felizes, caso tenha inclinação à depressão. O hormônio serotonina melhora o humor, combate a insônia, melhora a qualidade do sono, reduz a ansiedade, promove o bem-estar, combate o estresse e a depressão, favorece o relaxamento e, consequentemente, a saúde. Em contra partida, os "hormônios da doença" são liberados pelo corpo diante de um estado emocional (ansiedade, tristeza, medo, orgulho, ódio, estresse, maldade, angústia, depressão, preocupação, etc.) que favorece a vulnerabilidade às doenças, como também dificulta a recuperação, por interferir no sistema imunológico da pessoa. Por exemplo: remoer  - durante apenas cinco minutos - uma lembrança em que você sentiu raiva, permite que o seu organismo produza o hormônio cortisol. Este tem papel importante no organismo, ou seja, ele é necessário para manter o equilíbrio físico. Porém, quando em excesso - no sangue - pode reduzir a imunidade, deixando o organismo vulnerável a doenças.

Sem dúvida, o que pensamos influencia o que sentimos e, conseqüentemente, o nosso corpo e comportamentos. Em uma pesquisa realizada com mais de 600 oncologistas de todas as partes do mundo, para os médicos entrevistados, 95% deles, o que curou os pacientes foi a mudança de comportamento. Os enfermos que cultivaram os pensamentos e emoções de amor, esperança, fé, determinação, gratidão e otimismo alcançaram chances de vencer o câncer. O mesmo vale para aftas, enxaquecas, dores no corpo, insônia, herpes e outros. 

Como vimos, o tempo todo os nossos pensamentos e as nossas emoções (medo, tristeza, raiva, alegria, nojo, etc.) se refletem no nosso corpo e podem influenciar de maneira positiva ou negativa a saúde. Porém, não podemos “controlar” nossos pensamentos e emoções, mas podemos aprender a gerenciá-los. Para isso, é preciso cuidar da parte psíquica, pois o equilíbrio necessário para gerenciar os pensamentos e as emoções  está justamente  no processo de autoconhecimento - já que saber de si, conhecer-se e gradualmente amadurecer é o que de fato ajuda e possibilita mudar os modelos mentais que causam males físicos.


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Referência:

Nascimento, E. e Quinta, E.M. Terapia do Riso. São Paulo: Harbra, 1988.

domingo, 5 de novembro de 2017

CONHECER-SE FAVORECE A VIDA A DOIS

Por Néa Tauil


Sabemos que a convivência com pessoas nem sempre é muito fácil, pois todas as modalidades de relação (família, amizade, casamento, trabalho, estudo, etc.) não envolvem apenas alegrias, prazeres, realizações, conforto. Ou seja, não existe apenas o lado prazeroso das relações, há também o lado dos conflitos, do desprazer em que as pessoas geram em nós  sentimentos desconfortáveis, como frustração, mágoa e raiva. Sendo que não só as  outras pessoas nos provocam sensações boas ou más, também provocamo - nas  as mesmas sensações, pois vivenciar momentos de prazer e desprazer são inerentes às relações humanas. Porém, a questão é: como lidar com essa condição na vida a dois, sem destruir o relacionamento? 

A vida a dois é uma construção do dia a dia e, para agir de uma forma mais tranquila - na relação  "eu-outro"- o autoconhecimento é essencial para que a pessoa possa se observar dentro da relação. Isto é, na arte de se relacionar com o outro, é primordial conhecimento de nosso próprio eu. Quando a pessoa conhece seus pontos fortes e fracos, fica mais fácil desenvolver atitudes que promovam relacionamentos mais saudáveis e construtivos. Estar ciente sobre os próprios limites, fica mais fácil desenvolver atitudes que resolvam essas limitações, apropriar dos próprios sentimentos, reconhecendo-os e questionando quais necessidades emocionais não estão sendo atendidas, evita o desgaste das relações por questões de pouca relevância. Podemos dizer isto: quando a pessoa não se conhece em profundidade, ela caminha no escuro, coloca-se em condições de inferioridade diante do outro, pois fica difícil perceber quem realmente é, o que consegue ou não fazer, identificar quais são as suas necessidades, desejos e suas verdadeiras habilidades e aquilo que pode lhe ajudar a melhorar tais habilidades.  Com certeza, quando temos consciência do nosso papel e do papel do outro na relação, com limites bem definidos, a vida a dois tende a ser mais igualitária e com respeito ao espaço de ambos.

Na real, o processo de autoconhecimento muda a forma como uma pessoa interage consigo mesmo, com o mundo e com as outras pessoas, abrindo a possibilidade para conhecer e aprender novas coisas. Conhecer-se melhor, sabemos, desde Sócrates (470-399 a.C.), é fundamental para o viver, já que os outros entram em nossa sintonia e repetem o que emanamos. Sócrates foi um grande defensor do autoconhecimento, e durante a sua vida, dedicou muito tempo para tentar entender a sua própria natureza. Afirmou que nenhum indivíduo era capaz de praticar o mal conscientemente e propositadamente, mas que o mal era um resultado da ignorância e falta de autoconhecimento.

De fato, quanto menos autoconhecimento, mais o inconsciente vai estar no comando. O inconsciente não se manifesta na vida de cada pessoa apenas em lapsos, atos falhos ou em sonhos. Na verdade, ele é uma força que está por trás de todas as nossas escolhas e repetições de comportamento. Entretanto, a maneira como o inconsciente interfere em cada pessoa é relativo, já que leva em consideração a história de vivência de cada um, conforme as representações sociais introjetadas pela família em que está inserida. Então, não é por outra razão que o mesmo inconsciente que nos impulsiona a repetir atitudes saudáveis, leva-nos também a repetir, compulsivamente, atitudes negativas e destrutivas. E o que é pior: por não se conhecer, a pessoa segue repetindo sempre os mesmos padrões  negativos e destrutivos.

Infelizmente, são muitas as possibilidades de padrões negativos e destrutivos aprendidos na infância que podem criar dilemas inconscientes que acabam levando a pessoa a agir contra si mesma na idade adulta. Um bom exemplo são  as relações abusivas que envolve ( violência física, psicológica e sexual) na vida a dois. É essa a violência  privada que  chamo de "fundo do poço" e que muitas vezes é a partir daí que alguns casais procuram ajuda psicológica, com o objetivo de romper com os padrões negativos e destrutivos no modo de se relacionar e emergir para uma nova concepção saudável de relacionamento. Por outro lado, outros tantos vivem afundados no ciclo da autossabotagem, repetindo padrões de comportamentos  negativos e destrutivos mantenedores das relações abusivas, já que a familiaridade com o problema e as reações a ele criam uma segurança neurótica no casal. Isto é, a paralisia e o torpor são mais aceitáveis do que o aprendizado de novos padrões. Mas, sem sombras de dúvidas, torna-se muito mais complicado manter relacionamentos doentios do que saudáveis. Então, para uma vida a dois leve, equilibrada e estável, o caminho é o autoconhecimento.



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sábado, 7 de outubro de 2017

TRISTEZA É DEPRESSÃO?

Por Néa Tauil



Infelizmente, apesar de vivermos no mundo da informação, boa parte das pessoas ainda confundem tristeza  com depressão. Mas essa confusão pode ser perigosa, já que a depressão aumenta - em 80% - a mortalidade por causas somáticas (doenças cardíacas, diabetes, hipertensão, AVC, obesidade, etc.) além, é claro, de ser considerada como a principal causa de suicídio.

É importante ressaltar que tristeza não é depressão, por isso,  é fundamental aprender diferenciar uma da outra  para que a depressão deixe de ser ignorada pelo portador e por parte da família, podendo ser prevenida e tratada. Dessa forma, uma melhor compreensão sobre a diferença entre a emoção tristeza e  a doença depressão pode ajudar a reduzir o estigma associado ao estado depressivo, além de levar mais pessoas a procurar ajuda.

Então, para acabar com qualquer dúvida e levar a depressão à sério, o quanto merece, conheça as principais diferenças entre tristeza e depressão: a tristeza é um sentimento normal, que faz parte da vida psicológica de todos nós, assim como  medo, raiva, alegria e outros sentimentos. Ela surge em resposta a alguma lembrança que tenha significado importante, ou algum evento ruim ( por exemplo, perda de um amigo, revés financeiro, etc.). Quando a pessoa está  triste, em geral, consegue seguir com o seu  trabalho, relacionamentos afetivos e compromissos sociais. Consegue reagir e encontra motivação para superar as dificuldades, isto é, mantém a esperança. Pode passar por momentos difíceis, mas não perde a capacidade de sentir prazer e/ou aproveitar as coisas boas da vida. No caso da depressão, a tristeza e o desprazer podem oscilar, mas, em geral, são mais persistentes ao longo do tempo e os problemas normais do cotidiano tomam proporções exageradas. A pessoa pode perder a capacidade de reação, a esperança em reverter seu quadro de marasmo, desânimo e tristeza.  Diante disso, a pessoa tende a se isolar, ao contrário de uma pessoa triste, que busca ajuda e a companhia de amigos. Por vezes, pode não haver tristeza, mas, sim, uma incapacidade de sentir prazer, mesmo nas atividades que antes eram prazerosas. A depressão, quase invariavelmente, causa prejuízo em uma ou mais esferas do funcionamento do indivíduo, tais como trabalho e desempenho nos estudos. A pessoa tende a ficar mais irritada e impaciente do que o normal, o que prejudica os relacionamentos de modo geral (familiar, afetivo ou social).  Surgem também os sintomas físicos, pois ao contrário do que muitos pensam, depressão não é uma doença de sintomas estritamente psicológicos, mas sim uma das doenças emocionais que mais ataca o corpo. Muitas pessoas não reconhecem que estão deprimidas por não associarem ao transtorno depressivo os sintomas físicos, como cansaço, alterações no apetite, dificuldade extrema de concentração, hipersônia ( excessivas horas de sono ou sonolência)  ou insônia, dores difusas pelo corpo, distúrbios gastrointestinais, fadiga, taquicardia, dores na coluna, dificuldade de respirar, sensação de opressão no peito, perda ou diminuição do desejo sexual, imunidade baixa, entre outros.

Por tudo isso, saber identificar um estado depressivo faz com que a pessoa  encare o problema como uma doença - que merece a devida atenção - e pode buscar ajuda de um profissional qualificado, ao invés de atribuir seus sintomas como  uma reação a fatos  ruins da vida ou como uma coisa passageira sem importância e até mesmo sem solução. Lembre-se:  depressão não é tristeza e precisa , sim, de tratamento, pois é prejudicial ao indivíduo, aos seus próximos e à sociedade de maneira geral





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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

MAIS INFORMAÇÃO, MENOS SOFRIMENTO

Por Néa Tauil


Os meios de comunicação são artifícios que permitem a comunicação entre pessoas, contribuindo com o processo de transmissão de informações. E esta é a verdadeira importância dos meios de comunicação. 

Costumo dizer que a informação liberta, expande, estimula, amplia, libera, atenua, alivia, esclarece e alerta. Por isso, me sinto gratificada em ver meu texto publicado na Revista ACONTECE - CE ( circula na região metropolitana do Cariri e nos órgãos governamentais de Fortaleza). É um prazer e uma honra ser colunista deste valioso instrumento de comunicação. Aqui está o texto publicado na edição de setembro. 




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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

QUANDO UM CASAL PRECISA DE PSICOTERAPIA?


 Por Néa Tauil






É certo que todos os casais colecionam conflitos de várias espécies, em contextos  e características absolutamente particulares de cada casal e de cada pessoa que o forma. Porém, nem sempre é fácil determinar qual o momento exato de se procurar psicoterapia para o casal, na tentativa de encontrar uma saída para os problemas do relacionamento. 



Contudo, a partir da minha visão e experiência, como psicóloga, se pensarmos de forma preventiva, seria importante que o casal procurasse ajuda, quando identificasse divergências consideráveis e repetitivas, sobre as quais não consegue chegar a nenhum acordo, o que é comum, por exemplo, com a educação de filhos. No entanto, a predominância é pela procura profissional, quando há, depois de várias e desgastantes tentativas, com conflito já deflagrado, com adoecimentos e aparecimento de graves sintomas em um dos parceiros ou nos filhos.


Na verdade, o diálogo franco e desprovido de rancores é sempre uma boa alternativa para elucidar dúvidas e resolver questões que podem ameaçar a boa convivência entre os parceiros. Mas, contrariando o que muitos pensam, nem sempre é a falta de comunicação o principal problema, que pode desencadear outras dificuldades na relação, mas comunicações inadequadas, prejudiciais ao diálogo construtivo que se constitui de várias características, como escuta atenta, linguagem respeitosa e não violenta, legitimação do que diz e sente a outra pessoa, tom de voz, escolha de momento e lugar para conversar, entre outras. Comunicar-se de forma positiva para o relacionamento é um de seus alicerces mais importantes, e o psicoterapeuta colabora muito para que isso aconteça.

Infelizmente, há muitas dificuldades culturais e sociais para o reconhecimento e procura desse tipo de psicoterapia, sendo mais constante a ida de um ou outro para uma psicoterapia individual, quando vão, ou o encaminhamento de filhos para tratamento. Ainda hoje, há quem pense que quem faz psicoterapia de casal acaba se separando, que apenas pessoas " loucas" precisam dessa forma de tratamento ou que procurar ajuda é uma demonstração de fraqueza. 


A grande questão é que ainda existe muito preconceito sobre procura de atendimentos à saúde mental, psicológica e emocional. Mas, importa dizer que os problemas emocionais e as doenças mentais trazem muito sofrimento e limitações àqueles que os sentem, porém, não deixam sinais físicos, nem alterações laboratoriais. Ou seja, o fato de os transtornos não serem perceptíveis, como uma febre ou um osso quebrado, faz com que as pessoas não os compreendam e com isso acabam prejudicando a própria qualidade de vida e daqueles que o cercam.



Por isso, é importante   desconstruir os conceitos preestabelecidos sobre psicoterapia em geral ( individual, casal ou familiar), aprendendo a olhar para ela como um modo de cuidar das diversas formas com as quais o sofrimento humano pode se manifestar. Sem dúvida, a psicoterapia é uma  ferramenta útil, pois auxilia a ampliação da consciência e a vislumbrar possíveis caminhos que sejam diferentes da incomunicabilidade e do cultivo de sentimentos negativos, que podem induzir à violência física ou psicológica que ocorre nas famílias, especialmente a conjugal. Então, com a mente aberta, a intenção de melhorar e a busca pela psicoterapia, pode-se obter muitos benefícios para si mesmo e, consequentemente, para aqueles com quem convive.





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domingo, 23 de julho de 2017

UMA HISTÓRIA DE RESILIÊNCIA



Por Néa Tauil



Como psicóloga, as histórias que escuto em meu consultório, ao longo dos anos, são extraordinárias e, com frequência, tão improváveis que, se as lêssemos em um romance, poderíamos considerá-las por demais fantasiosas ou aterrorizantes. Porém, são histórias verdadeiras de pessoas que passaram por momentos trágicos, mas que conseguiram se adaptar e retomar à vida. Sem dúvida, além das que escuto, são muitas  as histórias de resistência e superação de pessoas vítimas de  acidentes, doenças, catástrofes naturais (terremotos, furacões e enchentes). Bem como de situações sociais degradantes, como a miséria, o desemprego, a violência física, psicológica e sexual, os diversos tipos de preconceito (racismo, idade, peso/tamanho, nativismo, sexismo, homofobia, etc.) Enfim, são relatos de pessoas que  conseguiram minimizar os efeitos nocivos que poderiam carregar da experiência traumática, mas deram a volta por cima.

Como exemplo de história que transmite resiliência, citarei aqui a da artista Madonna. No dia 16 de agosto, de 1958 nascia, em Bay City, Michigan (EUA), Madonna Louise Ciccone. Ela passou a infância em Pontiac, um subúrbio de Detroit e Avon Township. Quando tinha cinco anos, sua mãe faleceu, vítima de um câncer de mama, aos 30 anos. Meses antes de sua morte, Madonna havia notado mudanças no comportamento de sua mãe. Estava atenta, embora não entendesse a razão disso. Sra. Ciccone, não encontrando maneiras para explicar sua terrivel condição médica, muitas vezes começava a chorar, quando questionada por Madonna, altura em que esta respondia com um abraço fraternal em sua mãe. "Lembro-me sentindo mais forte do que ela era". Madonna lembra: "Eu era tão pequena e ainda assim eu senti que ela era a criança." Madonna reconheceu mais tarde que ela não tinha entendido o conceito de sua mãe morrer. "Havia tanta coisa não dita, tantas emoções a desembaraçar e resolver, remorso, culpa, perda, raiva, confusão. [...] Eu vi minha mãe, com o olhar tão bonito e mentiram para mim como se ela estivesse dormindo em um caixão aberto. Então, eu notei que a boca de minha mãe estava engraçada. Levei algum tempo para perceber que ela tinha sido enterrada. Nesse momento terrível, eu comecei a entender o que eu tinha perdido para sempre. A imagem final da minha mãe, ao mesmo tempo tão pacífica e grotesca, assombra-me até hoje." Madonna finalmente aprendeu a cuidar de si mesma e de seus irmãos, virou-se para a avó, na esperança de encontrar algum conforto e alguma forma de sua mãe nela. Os irmãos Ciccone, ressentidos, invariavelmente, rebelaram -se contra qualquer pessoa trazida para casa ostensivamente para tomar o lugar de sua querida mãe. Em entrevista à Vanity Fair, Madonna comentou que ela se via em sua juventude como uma jovem "solitária, que procurava por alguma coisa. De certa maneira, eu não era rebelde. Importava-me em ser boa em alguma coisa. Eu não raspava minhas axilas, não usava maquiagem como garotas normais. Mas, estudei e tenho boas qualidades.... Eu queria ser alguém." Temendo que seu pai poderia ser tirado de seu convívio, Madonna foi muitas vezes incapaz de dormir sem estar perto dele. Seu pai se casou com a governanta da família Joan Gustafson, tiveram dois filhos: Jennifer e Mario Ciccone. Neste momento, Madonna começou a expressar sentimentos não resolvidos de raiva para o pai, que perduraram por décadas, desenvolvendo nela uma atitude rebelde. Já adulta, ao receber o prêmio de Mulher do Ano - 2016 da revista
Americana Billboard, em Nova York, Madonna em sua fala de agradecimento falou sobre sexismo, misoginia e uma série de obstáculos sofridos ao longo da vida. Em uma das partes do discurso,   falou de sua vida como adolescente, quando havia acabado de se mudar para Nova York: "As pessoas estavam morrendo de AIDS em todos os lugares. Não era seguro ser gay, não era legal ser associada à comunidade gay. Era 1979 e Nova York era um lugar muito assustador. No meu primeiro ano [na cidade], eu fiquei sob a mira de uma arma de fogo, fui estuprada num terraço com uma faca na minha garganta, tive meu apartamento invadido e roubado tantas vezes que eu parei de trancar as portas. Com o passar do tempo, perdi para a AIDS ou para as drogas ou para as armas quase todos meus amigos que tinha. Como vocês podem imaginar, todos esses acontecidos inesperados não apenas me ajudaram a me tornar a mulher ousada que está aqui, mas também me lembraram que sou vulnerável, e que na vida não há segurança verdadeira, exceto sua auto-confiança.” No final de seu discurso, Madonna relembrou alguns artistas já falecidos:“Eu acho que a coisa mais controversa que eu já fiz foi ficar aqui. Michael [Jackson] se foi. Tupac se foi. Prince se foi. Whitney [Houston] se foi. Amy Winehouse se foi. David Bowie se foi. Mas eu continuo aqui. Eu sou uma das sortudas e todo dia eu agradeço por isso."

Nota-se que a Madonna pode ser considerada uma pessoa com caráter resiliente. Para a psicologia, resiliência é a capacidade humana de enfrentar, sobrepor-se ou sair fortalecido ou transformado de experiências de adversidade. É a capacidade de utilizar situações adversas para o crescimento e desenvolvimento emocionais, habilidade de retornar ao estado habitual de saúde mental, após passar por momentos trágicos. Com base nisso, é correto dizer que as características do caráter resiliente são: introspecção, autonomia, capacidade  de - diante de uma situação adversa- manter distância emocional, sem cair no isolamento, capacidade de se relacionar e estabelecer laços de intimidade com outras pessoas, capacidade de manter relações e de se colocar no lugar do outro, ter iniciativa, bom humor (não é euforia), criatividade, capacidade de criar ordem, beleza e finalidade, a partir do caos e da desordem, senso ético, capacidade de comprometer-se com valores, autoestima consistente e capacidade de dar sentido emocional às experiências de vida por meio da utilização de simbolização.

Se considerarmos que a resiliência se baseia  nas experiências relacionais precoces e na possibilidade de estabelecer laços sociais posteriores, pode-se afirmar que um fator de proteção e fortalecimento para superar adversidades complexas é o fato de estes indivíduos apresentarem, pelo menos, um vínculo seguro na infância com uma pessoa significativa. Isto quer dizer que para a obtenção de um caráter resiliente, o importante é contar com apoio incondicional de uma figura significativa, como o acolhimento materno que tenha sido recebido incondicionalmente. Mas, é bom lembrar que não precisa ser necessariamente a mãe quem faz esta função. O que importa é haver essa figura significativa. A psicanalista Alice Miller (2004) chama essa pessoa significativa de testemunhas auxiliadora e conhecedora. A testemunha auxiliadora é uma pessoa (tia, avó, irmãos, vizinha, empregada, babá, professora) que ajuda a criança maltratada ou negligenciada, ainda que de forma esporádica, oferecendo-lhe apoio, amor, carinho, sem a intenção de manipulá-la, com a finalidade de educá-la, de confiar nela e transmite-lhe a sensação de que não é má, que merece ser tratada com respeito. Muitas vezes, a criança acredita ser maltratada por ser má, ou culpada por apanhar, ser xingada, abusada, negligenciada, carregando consigo esses sentimentos por toda sua vida, comprometendo sua noção de valor (autoestima), e até suas escolhas. Essa testemunha será muito lembrada quando adulta, descobrindo a diferença que o amor dessa pessoa fez em sua história. Muitas repetições de padrões destrutivos são rompidos devido a essa testemunha. Em casos em que essa testemunha for totalmente ausente, quando adulta, poderá usar a violência em que foi tratada quando criança, em seus próprios filhos, empregados, etc. Alice Miller estudou a infância de Hitler e não foi encontrada nenhuma pessoa significativa em sua vida. Já a testemunha conhecedora é uma pessoa que conhece as consequência da negligência e do abuso (psicológico, físico e sexual) sofrido pela criança. Na vida adulta, a testemunha conhecedora pode representar um papel semelhante ao da testemunha auxiliadora na infância. Pode ajudar, transmitindo aos adultos que sofreram algum tipo de abuso - na infância - empatia, acolhimento, validação dos sentimentos, ajudando-os assim a entender melhor suas histórias, seus sentimentos de medo e impotência - para que agora na idade adulta possam ter mais liberdade em suas escolhas, libertando-os das consequências do sofrimento do passado. Então, podemos supor que a sorte da Madonna foi a presença de pessoas significativas em sua vida, tanto na infância quanto na idade adulta, possibilitando, assim, o desenvolvimento do seu caráter resiliente.


Como foi dito anteriormente, na vida adulta, a testemunha conhecedora pode representar um papel semelhante ao da testemunha auxiliadora na infância. Dentre algumas testemunhas conhecedoras estão aqueles psicólogos(as) que estudam e trabalham com abusos sofridos na infância, pois quando adulto, é indispensável  a  presença da testemunha conhecedora, para  que haja libertação do sofrimento da infância. Mesmo porque, muitas dessas questões são dolorosas e é preciso "elaborar", isto é, transformá-las em algo produtivo que possa contribuir para vida da pessoa. É nesse contexto que entra a figura dos psicólogos e processos terapêuticos, lugar este, onde é possível transformar frustração e sofrimento em realização e felicidade.


Todos os direitos reservados a Julcinéa Maria Tauil (Néa Tauil)

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Referência: 
Miller, Alice; A verdade Liberta: superando a cegueira emocional. São Paulo: Martins Fontes, 2004